3. BRASIL 25.7.12

CHANTAGEM NA RETA FINAL
As vsperas do julgamento do mensalo, o empresrio Marcos Valrio ameaa de novo revelar detalhes de encontros secretos que teria mantido com o ento presidente Lula antes do escndalo.
RODRIGO RANGEL

     Pouca gente tem mais intimidade com o ex-presidente Lula do que o ex- metalrgico Paulo Okamotto. Alm de amigo pessoal, ele sempre atuou como uma espcie de assessor de luxo do ex-presidente, principalmente em assuntos que envolvem dinheiro. No Sindicato dos Metalrgicos de So Bernardo, Lula foi presidente e Okamotto, diretor de finanas. Na primeira campanha presidencial disputada pelo petista, em 1989, Okamotto era o tesoureiro. Essa relao de confiana ganhou outra conotao quando se soube, durante o escndalo do mensalo, que Okamotto pagara do prprio bolso uma dvida do presidente. A operao levantou uma srie de dvidas, principalmente porque a dvida foi saldada em dinheiro vivo e no havia registro algum do responsvel pela quitao. Coube ao prprio Paulo Okamotto esclarecer o mistrio: ele tinha em mos uma procurao do presidente que lhe dava poderes para atuar em seu nome. O polivalente Okamotto anda s voltas com uma misso poltico-financeira muito mais complicada: foi encarregado de manter sob controle  e acima de tudo em silncio  o empresrio Marcos Valrio. As vsperas do julgamento do mensalo no Supremo Tribunal Federal, Valrio est chantageando o ex-presidente Lula e o PT.
     Denunciado pelo procurador-geral da Repblica como o operador do maior esquema de corrupo da histria, Marcos Valrio era dono de duas agncias de publicidade que escondiam uma cmara de compensao. Em 2002, na campanha que elegeu o ex-presidente Lula, a agncia, entre outras coisas, providenciou o envio ao exterior de mais de 10 milhes de reais para pagar as despesas de campanha do PT  dinheiro arrecadado no Brasil, provavelmente de corrupo, e remetido para fora do pas de maneira ilegal. No governo Lula, o esquema ganhou sofisticao. A agncia passou a receber recursos diretamente dos cofres pblicos, simulava prestao de servios e subornava congressistas e partidos polticos. Segundo o Ministrio Pblico, 74 milhes de reais foram desviados. Encarregado da contabilidade da organizao criminosa, Valrio responde pelos crimes de corrupo ativa, peculato, lavagem de dinheiro, formao de quadrilha e evaso de divisas. Somadas, as penas podem chegar a 43 anos de priso. O empresrio se diz guardio de um valioso e delicado segredo.
     Em maio, quando os ministros do STF j debatiam a data de incio do julgamento, petistas influentes foram mobilizados para conter a ofensiva de Marcos Valrio. De Belo Horizonte, onde mora, o operador do mensalo fez chegar  cpula do PT a ameaa: depois de refletir muito, teria finalmente decidido procurar o Ministrio Pblico para revelar alguns segredos  o principal deles, supostos detalhes de suas conversas com Lula em Braslia. O ex-presidente sempre negou a existncia de qualquer vnculo entre ele e o operador do mensalo antes, durante e depois do escndalo. Para mostrar que no estava blefando, como j fizera em outras ocasies, o empresrio disse que enviaria s autoridades um vdeo com um depoimento bombstico, gravado por ele em trs cpias e escondido em lugares seguros. Seria parte do acordo de delao premiada com os procuradores. Seu arsenal tambm incluiria mensagens e documentos que provariam suas acusaes. Paulo Okamotto, que hoje  diretor-presidente do Instituto Lula, foi um dos que receberam o recado  prontamente decodificado por um grupo de assessores prximos ao ex-presidente, que entrou em ao para evitar turbulncias na reta final do processo. Desde as primeiras chantagens de Valrio, em 2005, o ex-tesoureiro era incumbido de intermediar as conversas com o empresrio, que cobrava proteo e dinheiro.
     O advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, petista histrico e tambm integrante do crculo ntimo de Lula, foi destacado para descobrir se as ameaas, desta vez, procediam. Ele procurou pessoas prximas a Marcos Valrio, advogados, integrantes do Ministrio Pblico, polticos e empresrios. Ouviu a histria sobre o depoimento em vdeo, mas no encontrou uma nica evidncia de que ele realmente exista. Greenhalgh, h mais de um ano,  um dos encarregados de conversar com Marcos Valrio. Ele se reuniu com o empresrio algumas vezes em seu escritrio em So Paulo. O Greenhalgh  o pacificador,  quem sempre d as garantias a ele, disse a VEJA uma fonte da confiana de Valrio. O advogado no sabe se o vdeo existe ou no, porm descobriu que o tal acordo de delao premiada era mais um blefe do empresrio. Um blefe calculado para gerar calafrios e advertir os petistas sobre antigos compromissos assumidos. Segundo um assessor do empresrio, a cpula do partido prometeu que lanaria mo de todos os instrumentos possveis para livr-lo da cadeia.
     Procurado, o advogado Greenhalgh no retornou as ligaes. Paulo Okamotto admitiu ter participado de reunies com Marcos Valrio, mas disse que isso nada tem a ver com ameaas ou chantagens: Ele queria me encontrar porque s vezes queria saber das coisas. Em geral, ele quer saber como est a poltica, preocupado com algumas coisas. O mensaleiro escolheu como consultor o melhor amigo do ex-presidente que chantageia h sete anos. Indagado se a consultoria tambm envolvia assuntos financeiros, Okamotto explicou: Ele tem uma pendncia l com o partido, uma pendncia l de emprstimo, coisa de partido, referindo- se ao processo em que Valrio cobra judicialmente 55 milhes de reais do PT, como pagamento dos emprstimos fictcios que abasteceram o mensalo. E concluiu, em tom enigmtico: O Marcos Valrio tinha relao com o partido, ele fez coisas com o partido. Eu nunca acompanhei isso. Ento, quem pariu Mateus que o embale, n, meu querido?!.
     No  a primeira vez que o operador do mensalo ameaa envolver o ex-presidente Lula no caso. Em 2005, quando comearam a surgir provas contundentes do envolvimento de Marcos Valrio no esquema, e suas ligaes umbilicais com o PT, o empresrio ligou para o ento presidente da Cmara, deputado Joo Paulo Cunha, disse que faria um acordo de delao premiada e advertiu: Avisa ao barbudo que tenho bala contra ele. Ameaou, tambm, revelar o nome das empresas que abasteceram o caixa dois da campanha de Lula em 2002 e fulminar ministros que haviam recebido parte do dinheiro. Pelo seu silncio, Valrio imps algumas condies. Queria garantias de que no seria preso e uma bolada de 200 milhes de reais. As denncias nunca se materializaram. Em 2010, Marcos Valrio fez uma confidncia no gabinete de uma autoridade de Braslia: O Delbio (Soares) me levou para um futebol no palcio. A autoridade tentou mostrar indiferena diante do que acabara de ouvir, mas sabia muito bem o que aquilo significava. O objetivo era apenas enviar mais um recado. Delbio garante que essa visita nunca existiu.
     Pouco antes de deixar a Presidncia, Lula disse que se dedicaria a provar que o mensalo no existiu. Mas, em flagrante contradio, em 2005, no pice do escndalo, o ento presidente se penitenciou: Eu me sinto trado. Trado por prticas inaceitveis das quais nunca tive conhecimento. No tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que ns temos de pedir desculpas. O PT tem
de pedir desculpas. Apesar de reconhecer o crime, a estratgia j naquela poca era afirmar que toda a fraude aconteceu sem que o lder mximo do partido soubesse. Teoria que o prprio Lula acabou por fragilizar em depoimento ao Supremo Tribunal Federal, quando confirmou que realmente fora advertido pelo deputado Roberto Jefferson sobre a existncia do mensalo antes de o escndalo eclodir. Segundo o prprio Lula, na ocasio estavam presentes os ministros Aldo Rebelo e Walfrido Mares Guia e o deputado Arlindo Chinaglia  o mesmo que Jefferson acusou na semana passada de ter lhe oferecido vantagens para que ele no denunciasse a fraude. Arlindo Chinaglia disse que isso no  verdade. Na reta final, blefando ou no,  no mnimo estranho que, sete anos depois do mensalo, Marcos Valrio continue ameaando o PT  e o PT continue assombrado com as ameaas de Marcos Valrio.

